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Chuva dá trégua após 114 litros por metro quadrado nos últimos 3 dias: por onde e como passou a água em Vacaria?

Município não registrou alagamentos graves, mas expansão urbana precisa vencer desafios

A chuva começa a dar uma trégua em Vacaria depois de atingir áreas urbanas e rurais do município durante três dias. Apesar do volume elevado, não foram registradas situações graves.

No interior, as principais ocorrências envolveram quedas de árvores em propriedades rurais e episódios isolados de destelhamentos. Na cidade, não houve alagamentos de grandes proporções.

A chuva deixa uma pergunta que permanece mesmo depois da melhora do tempo: para onde vai toda a água que cai sobre uma cidade em crescimento e cada vez mais urbanizada?

A resposta passa pela capacidade da rede pluvial, pela posição dos bueiros, pelo acúmulo de lixo, pela conclusão adequada das obras de pavimentação e pela existência de imóveis construídos abaixo do nível das ruas.

Volume – Em 72 horas, até 114 litros de água por metro quadrado

Um dos pluviômetros automáticos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, instalado na região central de Vacaria, registrou 95,6 milímetros em 24 horas e 114 milímetros em 72 horas.

Cada milímetro de chuva equivale a um litro de água sobre um metro quadrado. Isso significa que, no ponto monitorado, caíram até 114 litros de água sobre cada metro quadrado durante o período.

A distribuição, porém, não foi igual em todo o município. Outros equipamentos apresentaram valores diferentes, o que demonstra que a chuva pode atingir bairros e localidades com intensidades bastante distintas.

Espaço de tempo – O problema não é apenas quanto chove

Para uma cidade, não importa somente o volume total. Também é necessário observar em quanto tempo a água chegou.

Uma chuva distribuída ao longo de vários dias permite que parte da água seja absorvida pelo solo e escoada gradualmente. Quando o mesmo volume cai em poucas horas, a rede precisa receber milhares de litros quase ao mesmo tempo.

Telhados, calçadas, estacionamentos, terrenos e ruas passam a direcionar água para os pontos mais baixos. É nesse percurso entre o local onde a chuva cai e a entrada da galeria pluvial que aparecem os principais obstáculos.

O asfalto – A pavimentação é um avanço para a cidade

A pavimentação representa uma melhoria importante para os bairros. Ela elimina a poeira nos períodos secos, reduz a lama nos dias de chuva, melhora o acesso às residências e oferece mais segurança e conforto para motoristas, pedestres e moradores.

Ruas asfaltadas também facilitam a circulação do transporte coletivo, dos serviços públicos e dos veículos de emergência. Portanto, ampliar a pavimentação significa levar infraestrutura e qualidade de vida para áreas que durante anos enfrentaram problemas provocados pelas ruas de terra.

O asfalto não deve ser tratado como algo negativo. O que precisa ser observado é que toda nova pavimentação modifica a forma como a água circula.

Os bueiros – Mais asfalto exige mais drenagem

Em uma rua de terra, parte da chuva consegue infiltrar-se no solo, embora a falta de pavimentação também produza lama, erosão, buracos e outros problemas. Com o asfalto, a superfície torna-se impermeável. A água deixa de penetrar no terreno e passa a escoar mais rapidamente pela via.

Essa é uma consequência técnica da urbanização, e não uma razão para impedir ou reduzir as obras. Significa apenas que os benefícios da pavimentação precisam ser acompanhados por uma estrutura capaz de receber o novo volume de água.

Quanto mais ruas pavimentadas, telhados, calçadas e estacionamentos uma cidade possui, maior é a necessidade de bueiros, sarjetas e galerias corretamente dimensionados. O desafio é fazer com que a drenagem avance no mesmo ritmo da pavimentação.

O meio-fio – Uma obra completa precisa definir o caminho da água

Outro ponto que precisa entrar nessa discussão é a pavimentação asfáltica executada sem meio-fio, sarjeta ou outra estrutura adequada de drenagem.

Quando essa estrutura não existe, está incompleta ou foi mal dimensionada, a água segue a inclinação natural do terreno. Nesse caminho, pode avançar sobre passeios, pátios, garagens e imóveis situados abaixo do nível da rua.

O meio-fio ajuda a limitar o escoamento e, em conjunto com a sarjeta, direciona a água até as bocas de lobo. Porém, sua simples instalação não impede um alagamento.

A inclinação da via precisa estar correta. A sarjeta deve conduzir o fluxo. As entradas dos bueiros precisam estar nos pontos adequados. As galerias subterrâneas também devem possuir capacidade para receber o volume.

Se uma dessas partes falhar, a água pode deixar o percurso planejado e procurar outro ponto de passagem. A drenagem funciona como um sistema. Não basta observar uma situação isoladamente.

A consciência – O lixo pode fechar a entrada

Mesmo quando a estrutura está corretamente posicionada, a água ainda pode encontrar outro obstáculo: o lixo acumulado sobre as entradas dos bueiros.

Embalagens, sacolas, garrafas, folhas e outros materiais são carregados pela enxurrada. Como os bueiros estão nos pontos de captação, acabam recebendo também os resíduos espalhados pelas ruas.

A galeria pode ter espaço disponível, mas não receber a água porque sua entrada está obstruída. O acúmulo começa na superfície e pode alcançar rapidamente calçadas e imóveis próximos.

Entretanto, colocar toda a responsabilidade dos alagamentos sobre o lixo seria uma explicação incompleta. O descarte irregular agrava o problema, mas não elimina a necessidade de capacidade, manutenção e ampliação da estrutura pública.

Quando uma rede insuficiente encontra uma entrada obstruída durante uma chuva concentrada, os dois problemas se somam.

No Instagram: Na Rua Mário Teixeira Borges, entre os números 10 e 17, o absurdo de encontrar um tanque de combustivel obstruindo 90% da vazão da rede pluvial é um exemplo de material carregado pela enxurrada.

O nível – Imóveis abaixo da rua tornam-se o ponto de fuga

A água sempre procura o ponto mais baixo. Em alguns trechos da cidade, garagens, pátios e residências estão abaixo do nível da via ou até mesmo abaixo das entradas dos bueiros.

Quando a captação não acompanha o volume, a água acumulada pode deixar a rua e avançar para dentro desses imóveis.

O risco depende da inclinação da via, da diferença de altura, da localização das bocas de lobo e do caminho formado entre o asfalto e as construções.

Por isso, duas ruas atingidas pela mesma quantidade de chuva podem apresentar resultados completamente diferentes. Em uma, a água encontra a galeria. Em outra, encontra primeiro a entrada de uma residência.

Chuvas ou esgoto – Rede pluvial e esgoto cloacal têm funções diferentes

A discussão também exige separar duas estruturas frequentemente confundidas: a rede pluvial e o esgoto cloacal.

A rede pluvial recebe a água das chuvas. Fazem parte dela os bueiros, as bocas de lobo, as sarjetas e as galerias que conduzem o volume retirado das ruas.

Em Vacaria, essa estrutura continua sob responsabilidade do Município. A manutenção, a limpeza, o planejamento e a ampliação da drenagem urbana permanecem como atribuições municipais.

O contrato de concessão da Corsan inclui o abastecimento de água e o esgotamento sanitário. A companhia somente poderia executar ou manter obras de drenagem pluvial mediante um acordo específico com o Município.

Coleta e tratamento – Corsan deverá ampliar o esgoto cloacal até 2033

O esgoto cloacal ou sanitário recebe os resíduos provenientes dos banheiros, cozinhas e demais instalações dos imóveis. Esse serviço está incluído na concessão da Corsan e será ampliado gradativamente.

O contrato estabelece uma meta de 35% de cobertura do esgotamento sanitário até dezembro de 2028 e de 90% até dezembro de 2033.

Isso não significa que a Corsan passará a ser responsável pela drenagem das chuvas. São estruturas diferentes, com finalidades e responsabilidades distintas.

Enquanto a Corsan deverá avançar na coleta e no tratamento do esgoto cloacal, o Município continuará responsável pelo caminho da água que cai sobre as ruas.

Área Rural – No interior, a chuva encontra outros obstáculos

Na área rural, os efeitos da chuva e do vento foram diferentes dos observados na cidade.

As ocorrências verificadas envolveram principalmente quedas de árvores em propriedades e destelhamentos isolados. Não foram registradas situações de maior gravidade.

Uma árvore caída no interior, porém, pode bloquear o único acesso a uma família, atingir a rede de energia ou impedir a circulação de veículos.

As grandes distâncias, as condições das estradas rurais e a maior exposição das construções ao vento fazem com que uma ocorrência aparentemente localizada possa produzir consequências maiores.

*Com informações da Secretaria de Obras, Defesa Civil, Secretaria de Segurança.

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