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Recorde da Expointer não apaga crise: agro gaúcho acumula perdas e R$ 39,9 bi em crédito problemático

O recorde de R$ 6,18 bilhões em negócios da Expointer 2026 mostrou a força do agronegócio gaúcho, mas não encerrou a crise financeira enfrentada por parte dos produtores. Dados oficiais do Governo do Rio Grande do Sul, Banco Central, entidades do setor e Congresso Nacional revelam um cenário de perdas climáticas acumuladas, endividamento elevado e novas medidas em discussão para reorganizar as dívidas do campo.

Atualizado em 8 de setembro de 2026
Especial Diário do Agronegócio

Recorde da Expointer não apaga crise: agro gaúcho acumula perdas e bilhões em crédito sob pressão

Dados do Governo do RS, Banco Central, entidades do setor e Congresso ajudam a explicar por que uma feira com R$ 6,18 bilhões em negócios pode coexistir com endividamento e perdas acumuladas no campo.

A discussão ganhou força após o encerramento da 49ª Expointer, no domingo (6). A feira reuniu mais de 909 mil visitantes e alcançou R$ 6.185.575.649,95 em negócios, um resultado histórico para o evento realizado em Esteio.

Ao mesmo tempo, governos, Congresso Nacional, instituições financeiras e entidades representativas continuam discutindo mecanismos específicos para renegociar dívidas e preservar a capacidade de produção das propriedades rurais.

R$ 6,18 bi em negócios na Expointer 2026
R$ 39,9 bi em carteira de crédito rural problemática no RS, segundo levantamento da Farsul com dados do BC
R$ 136,62 bi em prejuízos privados por desastres climáticos no RS entre 2000 e 2024
206.604 propriedades rurais atingidas pelas enchentes de 2024

Recorde de negócios e crise financeira medem coisas diferentes

A primeira diferença necessária para compreender o cenário está no próprio significado dos indicadores.

O volume negociado em uma feira mostra movimentação econômica, intenção de investimento e acesso a instrumentos de financiamento. Ele não representa, sozinho, a renda líquida disponível no caixa de cada produtor nem revela quanto das receitas futuras já está comprometido com dívidas anteriores.

Na Expointer 2026, somente o segmento de máquinas e implementos agrícolas movimentou aproximadamente R$ 5,46 bilhões. Muitas dessas operações são realizadas por meio de linhas de crédito e financiamentos de longo prazo.

O ponto central: um produtor pode investir em uma máquina necessária para manter sua atividade e, ao mesmo tempo, carregar financiamentos ou dívidas decorrentes de safras anteriores. Por isso, recorde de vendas e endividamento não são situações necessariamente contraditórias.

Durante a própria Expointer, o Banrisul apresentou linhas de crédito para custeio, irrigação, manejo do solo e aquisição de máquinas. O banco também ofereceu atendimento relacionado à renegociação prevista pela Medida Provisória 1.376/2026.

RS concentra R$ 39,9 bilhões em crédito rural problemático

Um dos números que mais ajudam a dimensionar a situação foi apresentado pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul, a Farsul, a partir de informações do Banco Central.

Segundo a entidade, o Rio Grande do Sul tinha, em abril de 2026, R$ 39,9 bilhões em carteira de crédito rural considerada problemática. Em valor absoluto, era a maior entre os estados brasileiros.

Mato Grosso aparecia em seguida, com aproximadamente R$ 21,8 bilhões.

O que significa “carteira problemática”?

O conceito não quer dizer que todo esse dinheiro esteja simplesmente em atraso. O indicador reúne operações que apresentam algum grau de estresse financeiro, como contratos em atraso, renegociados, prorrogados ou classificados em situação de maior risco.

Por isso, carteira problemática não deve ser tratada como sinônimo direto de inadimplência.

Esse detalhe ajuda a explicar outro dado aparentemente contraditório.

Segundo informações da Serasa Experian utilizadas pela Farsul, o Rio Grande do Sul apresentava taxa de inadimplência rural de 5,3% no quarto trimestre de 2025, uma das menores do país.

A interpretação apresentada pela entidade é que parte dos produtores conseguiu evitar a inadimplência justamente por meio de prorrogações ou renegociações das operações.

Crise foi construída ao longo de vários anos

As dificuldades atuais também não começaram em uma única safra.

Dados apresentados oficialmente pelo Governo do Rio Grande do Sul mostram que o Estado enfrentou seis estiagens severas em duas décadas: 2004, 2005, 2012, 2020, 2022 e 2023.

Entre 2023 e 2024, o Estado ainda registrou mais de dez episódios de enxurradas e inundações.

6 estiagens severas em duas décadas
+10 episódios de enxurradas e inundações entre 2023 e 2024
96% das perdas privadas registradas atingiram a agropecuária
R$ 82,43 bi em prejuízos privados somente entre 2020 e 2024

De acordo com levantamento apresentado pelo governo estadual com base no Atlas Digital de Desastres Naturais do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, os prejuízos privados relacionados a desastres climáticos no Rio Grande do Sul entre 2000 e 2024 somaram R$ 136,62 bilhões.

Somente de 2020 a 2024 foram R$ 82,43 bilhões, correspondentes a 60,3% do total do período analisado.

Outro número chama atenção: 96% das perdas registradas afetaram a agropecuária gaúcha. Desse total, 81% estavam relacionados à agricultura e 15% à pecuária.

Para entender o endividamento: quando uma propriedade perde produção em anos sucessivos, despesas de custeio, financiamentos, investimentos, arrendamentos e compromissos assumidos anteriormente não desaparecem. Parte dessas obrigações precisa ser renegociada ou carregada para as safras seguintes.

Enchentes atingiram mais de 206 mil propriedades rurais

As enchentes históricas de abril e maio de 2024 agravaram uma situação que já vinha sendo pressionada pelas estiagens.

Relatório técnico do Governo do Estado, com informações da Emater/RS-Ascar, contabilizou 206.604 propriedades rurais atingidas pelas chuvas e inundações.

Os prejuízos não ficaram restritos às lavouras.

Houve perdas em grãos armazenados, residências, galpões, silos, estufas, aviários e pocilgas. Pontes e estradas também foram danificadas, comprometendo tanto a chegada de insumos quanto o escoamento da produção.

No milho, o relatório estadual estimou redução próxima de 500 mil toneladas em relação à projeção feita antes das enchentes, principalmente pela perda de produtividade.

No arroz, a diferença entre a área plantada e a efetivamente colhida chegou a 47,3 mil hectares.

Depois das enchentes, estiagem voltou a reduzir a produtividade

Quando muitas propriedades ainda buscavam recuperar estruturas e reorganizar as contas, a irregularidade das chuvas voltou a comprometer diferentes regiões produtoras.

Na safra 2024/25, dados da Emater/RS-Ascar reunidos pela Secretaria Estadual da Agricultura indicaram produtividade média da soja de aproximadamente 1.957 quilos por hectare.

Antes do plantio, a expectativa era de 3.179 quilos por hectare.

A diferença representou uma redução de aproximadamente 38,4% em relação à produtividade inicialmente projetada para a soja naquela temporada.

Já na safra 2025/26 houve recuperação produtiva. Ainda assim, a Companhia Nacional de Abastecimento apontou que a irregularidade das chuvas prejudicou o desenvolvimento da soja durante fases importantes, como florescimento e enchimento dos grãos.

Uma safra melhor não elimina automaticamente dívidas antigas

A recuperação observada em algumas culturas é importante e precisa fazer parte da análise.

O Rio Grande do Sul voltou a apresentar volumes maiores de produção em 2025/26, enquanto as primeiras projeções para 2026/27 indicam potencial de crescimento em culturas como o milho.

Isso, porém, não significa que todas as perdas financeiras anteriores tenham sido recuperadas.

Uma propriedade pode colher mais em determinada safra e ainda usar parte relevante da receita para pagar custeios anteriores, financiamentos renegociados e investimentos necessários para manter a produção.

O tamanho do problema em números

Indicador Número O que mostra
Negócios da Expointer 2026 R$ 6,18 bilhões Força comercial, investimentos e acesso a financiamento
Carteira rural problemática no RS R$ 39,9 bilhões Volume de crédito sob algum grau de estresse financeiro
Prejuízos privados por desastres entre 2000 e 2024 R$ 136,62 bilhões Impacto acumulado de estiagens, enchentes e outros eventos
Participação do agro nas perdas 96% Mostra a exposição do setor rural aos desastres registrados
Propriedades atingidas nas enchentes de 2024 206.604 Dimensão territorial e social do desastre no campo
Perda frente à projeção inicial da soja 2024/25 aprox. 38,4% Nova frustração produtiva após eventos anteriores

Governo federal cria linha para reorganização das dívidas

Diante desse cenário, o governo federal publicou, em 15 de julho de 2026, a Medida Provisória 1.376.

A medida autoriza a criação de linhas de crédito destinadas à composição de dívidas, permitindo liquidação ou amortização de determinadas operações de crédito rural e Cédulas de Produto Rural.

A MP também permite a participação da União em um fundo garantidor voltado a operações de produtores afetados por eventos climáticos adversos.

Conforme as regras estabelecidas, podem existir condições diferenciadas de prazo e juros de acordo com o enquadramento do produtor e da operação.

A intenção é não apenas reorganizar passivos, mas também permitir que propriedades financeiramente pressionadas recuperem capacidade para contratar novos créditos e manter a produção.

Farsul afirma que regras atuais deixam grande parte das dívidas de fora

A criação do programa, entretanto, não encerrou a discussão.

A Farsul analisou uma amostra de contratos reais que somavam R$ 93 milhões em saldo devedor.

Segundo a entidade, apenas R$ 10,85 milhões, ou 11,7% da amostra, atenderiam às condições facilitadas previstas pela MP.

R$ 93 mi em contratos analisados pela Farsul
11,7% da amostra se enquadraria nas condições facilitadas
88,3% do saldo analisado ficaria fora
6% a 12% faixa de juros citada pela entidade para linhas controladas da MP, conforme enquadramento

É importante destacar que a amostra analisada pela Farsul não corresponde a toda a dívida rural do Rio Grande do Sul.

Ela foi utilizada pela entidade para demonstrar o que considera limitações nas regras atuais e fundamentar propostas de alteração apresentadas ao Congresso.

Entre as mudanças defendidas pela entidade estão:

  • ampliação do enquadramento de Cédulas de Produto Rural;
  • inclusão de operações realizadas com cooperativas e fornecedores de insumos;
  • tratamento para parcelas de investimentos já renegociadas;
  • mudanças nos critérios relacionados às datas das operações;
  • possibilidade de enquadramento após novas perdas climáticas;
  • inclusão de determinadas operações de capital de giro ligadas à atividade rural.

A Fetag-RS também vem defendendo ampliação do alcance das medidas, fortalecimento do seguro rural e políticas capazes de aumentar a capacidade de adaptação das propriedades aos eventos climáticos.

Congresso tem duas frentes em andamento para tratar das dívidas

A pressão por soluções financeiras chegou ao Congresso Nacional por mais de um caminho.

Neste momento, duas iniciativas merecem atenção especial: a própria Medida Provisória 1.376/2026 e o Projeto de Lei 5.122/2023.

Em urgência

Medida Provisória 1.376/2026

Está em análise no Congresso e já possui força de lei desde sua publicação, mas precisa ser aprovada para ser convertida definitivamente em lei.

A comissão mista é presidida pelo senador Renan Calheiros, e o deputado federal gaúcho Paulo Pimenta é o relator.

Em 8 de setembro, a matéria estava formalmente com a relatoria e em regime de urgência.

Voltou à Câmara

Projeto de Lei 5.122/2023

O Senado aprovou o projeto em 10 de junho de 2026, com alterações.

A proposta autoriza a utilização de recursos do Fundo Social do pré-sal e outras fontes para uma linha especial de financiamento voltada à reorganização de dívidas rurais.

Como o Senado alterou o texto aprovado anteriormente, a proposta retornou à Câmara dos Deputados.

Projeto aprovado no Senado prevê até 13 anos para pagamento

No texto aprovado pelo Senado para o PL 5.122/2023, o novo financiamento destinado à reorganização de determinados débitos poderia ter prazo de até 13 anos.

As taxas previstas no texto aprovado pelos senadores variam de 3,5% a 7,5% ao ano, conforme as condições e o perfil da operação.

Entretanto, essas condições ainda não podem ser tratadas como regras definitivas.

Atenção: o PL 5.122/2023 ainda não virou lei. Como foi modificado pelo Senado, o texto retornou para análise da Câmara dos Deputados. As condições podem sofrer novas alterações durante a tramitação.

MP também está sendo pressionada por mudanças

A Medida Provisória 1.376 também pode ser modificada pelo Congresso antes da aprovação definitiva.

Durante a Expointer, entidades do setor e representantes políticos voltaram a discutir alterações para aumentar o número de produtores capazes de acessar as linhas.

A Farsul encaminhou propostas de emendas com o objetivo de ampliar o alcance da renegociação. Entre os principais pontos estão CPRs, investimentos, capital de giro e operações anteriormente renegociadas.

A existência dessas discussões mostra que o endividamento permanece como um tema aberto mesmo após a criação das primeiras linhas de socorro.

Então existe ou não existe uma crise no agro gaúcho?

Os dados disponíveis exigem cuidado com generalizações.

Eles não sustentam a afirmação de que todo o agronegócio gaúcho esteja em colapso. O setor segue produzindo, exportando, movimentando bilhões de reais e realizando investimentos.

Ao mesmo tempo, também não sustentam a conclusão de que o recorde da Expointer tenha encerrado os problemas financeiros do campo.

Duas realidades podem existir ao mesmo tempo

A Expointer mostrou força econômica: R$ 6,18 bilhões em negócios, investimentos elevados e confiança de produtores e empresas na continuidade da atividade.

Os dados financeiros mostram pressão: perdas climáticas acumuladas, propriedades atingidas, financiamentos prorrogados ou renegociados e R$ 39,9 bilhões em carteira de crédito rural problemática.

Uma informação não anula a outra.

O desafio agora é transformar produção em capacidade de recuperação

O Rio Grande do Sul entra em uma nova safra com perspectivas melhores em diferentes culturas e sinais de retomada do investimento.

Entretanto, parte dos produtores ainda precisa equilibrar o financiamento da próxima temporada com compromissos acumulados ao longo de anos marcados por estiagens, enchentes e perdas de produtividade.

É por isso que a discussão deixou de envolver apenas crédito para plantar.

Hoje, o debate passa também pelo prazo necessário para reorganizar dívidas antigas, pelo custo dos financiamentos, pelo seguro rural, pela adaptação climática e pela capacidade de continuar investindo sem comprometer ainda mais o caixa das propriedades.

O recorde da Expointer 2026, portanto, representa um sinal importante de confiança no futuro do agronegócio gaúcho.

Mas os próprios governos, entidades rurais, bancos e parlamentares continuam mobilizados em busca de soluções específicas para o endividamento.

Os números mostram um setor que permanece forte economicamente e capaz de investir, mas que ainda tenta reorganizar as contas deixadas por uma sequência excepcional de perdas climáticas e produtivas.

Fontes consultadas: Governo do Rio Grande do Sul; Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação; Emater/RS-Ascar; Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional; Companhia Nacional de Abastecimento (Conab); Banco Central do Brasil; Farsul; Fetag-RS; Governo Federal; Câmara dos Deputados; Senado Federal; Congresso Nacional; dados oficiais da Expointer 2026 e levantamento publicado anteriormente pelo Diário de Vacaria.

Agro, Rio Grande do Sul, Vacaria

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