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Safra 2026/27: em Vacaria, cenário de grãos e gestão colocam a margem no centro

Encontro promovido pelo Grupo Agros e pelo Itaú BBA reuniu produtores na Vinícola Campestre para analisar preços, clima, custos, produtividade e as decisões que podem definir o resultado das fazendas

O produtor rural não controla o preço internacional dos grãos, o câmbio ou o clima. Também não consegue eliminar os custos da atividade. O que pode fazer é compreender melhor esse cenário e tomar decisões capazes de reduzir sua exposição aos riscos.

Essa foi a ligação entre as duas palestras apresentadas no Diálogos Agro em Vacaria, realizado na noite desta quarta-feira (26), na Vinícola Campestre. O encontro foi promovido pelo Grupo Agros e pelo Itaú BBA para produtores rurais da região.

Marina Marangon, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, apresentou o cenário dos grãos e as perspectivas para a safra 2026/2027. Na sequência, Lucas Broch, sócio-consultor do Grupo Agros, abordou a gestão das fazendas e mostrou por que produzir bem, embora continue sendo essencial, já não garante sozinho um resultado financeiro satisfatório.

As duas análises chegaram ao mesmo ponto: diante de preços pressionados, custos elevados, riscos climáticos e crédito mais caro, a margem precisa ocupar o centro das decisões da próxima safra.

Safra começa com preços pressionados e maior atenção ao clima

O cenário apresentado pelo Itaú BBA indica que as commodities agrícolas iniciam o ciclo 2026/2027 com preços pressionados. Uma recuperação mais consistente dependerá de mudanças na oferta mundial, especialmente de eventuais perdas provocadas pelo clima.

Segundo o relatório Visão Agro 2026/27, após quatro anos de margens comprimidas e custos persistentes, a tendência é de continuidade da pressão sobre os preços caso as principais regiões produtoras tenham safras dentro da normalidade.

O El Niño aparece como uma das principais variáveis. Enquanto o fenômeno pode aumentar os riscos de perdas no Cerrado e comprometer a janela do milho de segunda safra, no Sul do Brasil a preocupação se concentra no excesso de chuva. O relatório completo está disponível no portal do Itaú BBA.

Para produtores de Vacaria e dos Campos de Cima da Serra, essa leitura ganha importância porque a região reúne culturas de verão e de inverno e já conhece os efeitos de períodos prolongados de chuva sobre o plantio, o desenvolvimento das lavouras, a colheita e a qualidade dos grãos.

Produção mundial de soja pode chegar a 441 milhões de toneladas

Na soja, o Itaú BBA projeta uma produção mundial próxima de 441 milhões de toneladas na safra 2026/2027. O consumo global deve alcançar volume semelhante, impulsionado principalmente pela produção de proteína animal e pelo avanço dos biocombustíveis.

Para o Brasil, a estimativa apresentada pelo banco está entre 182 milhões e 186 milhões de toneladas. A expansão da área deve ocorrer em ritmo mais moderado, como reflexo dos custos elevados e dos preços menos estimulantes.

Mesmo com uma oferta mundial elevada, o crescimento do consumo reduz gradualmente a folga do mercado. A relação entre estoques e consumo é projetada em aproximadamente 28%, abaixo dos 29% da safra anterior.

Isso torna o preço mais sensível a problemas climáticos. Uma quebra nos Estados Unidos, no Brasil ou em outra grande região produtora pode alterar rapidamente um cenário que, inicialmente, parece confortável.

Milho terá demanda maior, mas clima preocupa

Para o milho, a projeção do Itaú BBA aponta produção brasileira de 142,5 milhões de toneladas em 2026/2027. O consumo interno pode chegar a 112,5 milhões de toneladas, crescimento de 12%, impulsionado pela alimentação animal e pela produção de etanol.

A demanda maior ajuda a absorver parte da produção, mas também reduz a margem de segurança diante de uma eventual quebra.

O relatório destaca que a segunda safra responde por aproximadamente 80% da produção brasileira de milho. Por isso, atrasos no plantio da soja e alterações no período de chuvas podem comprometer a janela da cultura e produzir efeitos sobre a oferta e os preços.

Trigo enfrenta margens apertadas

O trigo, cultura importante para o Rio Grande do Sul e para a região de Vacaria, também aparece em um cenário desafiador.

O Itaú BBA projeta redução de 3% na produção mundial, dos 844 milhões de toneladas registrados em 2025/2026 para aproximadamente 820 milhões de toneladas em 2026/2027.

Entre os principais países exportadores, a queda dos estoques pode chegar a 16%. Ainda assim, o produtor brasileiro enfrenta custos elevados, preços pouco atrativos e riscos relacionados à qualidade do grão.

No Brasil, a projeção apresentada pelo banco indica produção de aproximadamente 6,3 milhões de toneladas em 2026, redução de 20% em comparação com o ano anterior. Nesse ambiente, produtividade e qualidade podem determinar a capacidade de obter preços melhores.

Produzir mais já não significa necessariamente ganhar mais

Depois da leitura do mercado, Lucas Broch conduziu a discussão para dentro da propriedade rural.

A mensagem principal foi que o produtor precisa administrar três ambientes ao mesmo tempo: a lavoura, a operação e o negócio.

Na lavoura estão decisões como cultivares, perfil do solo, rotação de culturas e produtividade. Na operação entram o uso de máquinas, a organização das pessoas, os custos e a eficiência por hectare.

O terceiro ambiente é o negócio. É nele que o produtor precisa avaliar o retorno sobre o patrimônio, o uso de recursos próprios ou financiados, os arrendamentos, o endividamento e a relação entre risco e resultado.

Como resumiu Broch, “o agro é o único setor onde se produz com organismos vivos”. Além disso, a atividade utiliza a terra — que também é patrimônio — para produzir uma mercadoria cujo preço é definido por um mercado internacional em dólar.

A complexidade ajuda a explicar por que uma lavoura tecnicamente eficiente pode fazer parte de um negócio financeiramente fragilizado.

Custos cresceram muito mais do que o preço da soja

Um dos levantamentos apresentados comparou a evolução dos custos da soja de sequeiro no Rio Grande do Sul entre as safras 2002/2003 e 2026/2027.

Conforme a série histórica da carteira de clientes da Agros Assessoria, combinada com fontes públicas, o preço nominal da soja cresceu 3,5 vezes no período.

Enquanto isso, os insumos aumentaram nove vezes, os custos variáveis cresceram sete vezes e os custos fixos avançaram 13 vezes.

Para a safra 2026/2027, o custo total estimado pela modelagem foi de R$ 5.920 por hectare, sem considerar o arrendamento.

Os custos fixos incluem despesas que permanecem mesmo quando a produtividade ou o preço diminuem, como depreciação de máquinas, estrutura, administração e parte da mão de obra.

Na prática, uma propriedade pode se modernizar, comprar equipamentos e ampliar sua capacidade de produção, mas também criar uma estrutura que precisará ser sustentada todos os anos.

Uma variação de 10% pode retirar mais da metade do lucro

A palestra apresentou uma simulação para demonstrar como mudanças aparentemente pequenas podem produzir um impacto muito maior sobre o resultado final.

O cálculo considerou uma lavoura de soja de sequeiro no Rio Grande do Sul, com produtividade de 65 sacas por hectare, preço de R$ 135 por saca e arrendamento equivalente a dez sacas por hectare.

Nesse cenário, o lucro estimado antes do Imposto de Renda seria de R$ 1.497 por hectare.

Com uma redução de 10% na produtividade, o resultado cairia para R$ 619 por hectare — uma perda de 59%.

Se a produtividade fosse mantida, mas o preço recuasse 10%, o lucro diminuiria para R$ 764 por hectare, queda de 49%. Um aumento de 10% nos custos reduziria o resultado para R$ 913 por hectare, retração de 39%.

A simulação não representa todas as propriedades da mesma maneira. Ela mostra, porém, que a margem pode sofrer uma queda muito maior do que a variação registrada na produtividade, no preço ou nos custos.

O momento da venda também altera o resultado

A comercialização foi apresentada como outra decisão capaz de separar produtividade de rentabilidade.

O levantamento do Grupo Agros mostrou que o preço médio da soja na safra 2025/2026 ficou em R$ 135,40 por saca, considerando o Indicador Esalq/BM&FBovespa para Paranaguá.

O menor valor mensal foi de R$ 126,33, em fevereiro de 2026. O maior chegou a R$ 148,16 em agosto, com dados parciais até o dia 24.

A diferença de R$ 21,83 por saca correspondeu a 16% da média da safra.

Isso significa que dois produtores com a mesma produtividade e custos semelhantes podem obter receitas diferentes dependendo do momento e da forma como comercializam a produção.

Crescer em hectares não garante crescimento no resultado

Outra análise apresentada pelo Grupo Agros utilizou uma fazenda hipotética de mil hectares no Rio Grande do Sul para comparar diferentes estruturas ao longo de 15 anos.

No modelo com metade da área própria e metade arrendada, o retorno sobre o capital próprio caiu de 32%, entre as safras 2010/2011 e 2014/2015, para 17% nos cinco anos seguintes.

Entre 2020/2021 e 2024/2025, esse retorno foi reduzido para 7%.

O levantamento não afirma que o arrendamento seja necessariamente uma decisão ruim. O alerta está em ampliar a área sem calcular quanto esse crescimento acrescentará ao resultado depois do pagamento da terra, dos custos operacionais e dos juros.

Uma fazenda pode plantar mais hectares, movimentar mais dinheiro e colher um volume maior, mas entregar proporcionalmente menos resultado à família.

Terra valorizou, mas a operação passou a render menos

A palestra também relacionou a valorização das terras agrícolas ao lucro obtido com a produção.

Em recortes de áreas de alta produtividade das regiões de Passo Fundo/Erechim e Santo Ângelo/Cruz Alta/Palmeira das Missões, o valor nominal da terra multiplicou-se entre 6,4 e 9,3 vezes de 2003 a 2022.

Ao mesmo tempo, o lucro da operação da soja em relação ao valor da terra caiu de 10,9% para 1,1% em um dos comparativos apresentados.

Os números não representam diretamente os preços das terras em Vacaria. Eles demonstram que a valorização do patrimônio não significa, automaticamente, que a atividade desenvolvida sobre ele esteja oferecendo um retorno proporcional.

A análise também alcança a sucessão familiar. Preservar o patrimônio exige uma propriedade capaz de gerar renda, financiar sua continuidade e suportar períodos de menor rentabilidade.

Gestão passa a fazer parte do custo da lavoura

Ao afirmar que a gestão virou um insumo, a palestra colocou o controle financeiro e a análise dos riscos entre as decisões indispensáveis para formar uma lavoura.

Os caminhos apresentados incluem aumento da eficiência, proteção da margem, controle dos resultados, diversificação e comparação com indicadores de referência.

Isso significa conhecer o custo real de cada hectare, calcular quanto da receita será destinado ao pagamento de juros, avaliar a capacidade de pagamento das dívidas e medir se uma compra de máquinas ou um novo arrendamento realmente acrescentará resultado.

A análise de mercado apresentada pelo Itaú BBA mostrou o ambiente que o produtor encontrará fora da porteira. A apresentação do Grupo Agros mostrou quais decisões precisam ser tomadas dentro dela.

O encontro realizado em Vacaria não apresentou uma fórmula capaz de eliminar o risco da agricultura. Mostrou que, na safra 2026/2027, compreender o mercado, preservar a liquidez e proteger a margem será tão importante quanto alcançar uma boa produtividade.

Marina Marangon é economista formada pela Esalq/USP, mestre e especialista em Agronegócio. Atua há dez anos no mercado agrícola, com experiência em pesquisas no Cepea/Esalq-USP e na Faesp/Senar.

Lucas Broch é administrador formado pela URI Erechim, possui MBA em Gestão Financeira pela Fundação Getulio Vargas e formação executiva pela ISE Business School. Atua como sócio-consultor do Grupo Agros.

Agros, ITAU

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