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Ambientalplast avança e coloca Vacaria no mapa da inovação com resíduos e hidrogênio

Primeira operação integrada da planta piloto mostra a evolução do projeto, que reúne mais de R$ 45 milhões, conhecimento universitário, tecnologia brasileira e oportunidades para toda a cidade.

Vacaria não recebeu apenas uma visita oficial na sexta-feira, 21 de agosto. A cidade apresentou um projeto que começa a transformar uma ideia construída ao longo de anos em uma operação que já pode ser vista, acompanhada e estudada.

Durante a visita da secretária estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura, Marjorie Kauffmann, a planta piloto da Ambientalplast processou resíduos sólidos urbanos pela primeira vez utilizando, de forma integrada, todas as etapas atualmente instaladas.

O resíduo chegou, passou pela triagem, foi moído, seco e transformado em uma nova matéria-prima. Mais do que o funcionamento de máquinas, o momento mostrou o quanto o projeto avançou e a dimensão das oportunidades que começam a surgir ao seu redor.

O lixo começou a percorrer um novo caminho

Para compreender o projeto, não é preciso conhecer termos industriais. O princípio é simples: materiais que normalmente seriam enviados para um aterro passam por uma preparação para ganhar uma nova utilidade.

Primeiro, o resíduo é recebido e passa por uma triagem. Depois, é triturado em pedaços menores e segue para a secagem, que reduz a umidade.

Ao final dessa preparação, surge o Composto Biossintético Industrial, chamado de CBSI. Ele é um material seco e mais uniforme, com características que permitem sua utilização na produção de combustível, energia e outros produtos.

Foi esse caminho que a comitiva acompanhou na Ambientalplast. Pela primeira vez, as diferentes partes já instaladas trabalharam juntas com resíduos urbanos, permitindo visualizar o processo que até pouco tempo existia principalmente em projetos, estudos e testes separados.

Da preparação do resíduo ao hidrogênio

A produção do CBSI é o começo de uma transformação maior.

Na etapa seguinte, o composto passa pela pirólise, processo no qual o material é aquecido em um ambiente com pouco ou nenhum oxigênio. Em vez de uma queima comum, ocorre uma transformação controlada.

Desse processo podem resultar óleo, gás e uma parte sólida semelhante ao carvão, conhecida como biochar. Esses produtos podem ser utilizados como fontes de energia ou como matéria-prima para outras atividades industriais.

No projeto desenvolvido em Vacaria, eles também fazem parte da rota planejada para a obtenção de hidrogênio de baixo carbono.

O hidrogênio é visto mundialmente como uma alternativa para atividades que precisam reduzir suas emissões, especialmente transportes pesados e setores industriais nos quais a eletrificação é mais difícil.

Por isso, a Ambientalplast não representa apenas uma nova forma de tratar o lixo. O projeto une resíduos, energia, pesquisa e desenvolvimento de novos combustíveis dentro de uma mesma estrutura.

Mais de R$ 45 milhões em investimento

A dimensão do projeto também pode ser percebida pelos recursos envolvidos.

Em 1º de fevereiro de 2026, o governo do Rio Grande do Sul assinou o contrato de apoio à iniciativa pelo Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Hidrogênio Verde, o H2V-RS.

O aporte estadual é de R$ 30 milhões. A Rodoplast e a Ambientalplast assumiram uma contrapartida de aproximadamente R$ 15,3 milhões.

Somados, os investimentos públicos e privados previstos superam R$ 45 milhões.

Esse valor não está ligado somente à compra de equipamentos. Ele envolve implantação industrial, pesquisa, desenvolvimento tecnológico, análises dos resíduos, acompanhamento ambiental e construção de uma nova rota para a produção de energia.

A licença experimental concedida pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental, a Fepam, permite o processamento de até 15 toneladas de resíduos por dia. Isso cria condições para que os resultados sejam avaliados em uma escala próxima da realidade de uma cidade.

Uma história que começou dentro da Rodoplast

O projeto não surgiu pronto nem começou com o objetivo de receber o lixo urbano de Vacaria.

Sua origem está na história da própria Rodoplast.

Em 1994, Omar Secchi e seus irmãos iniciaram a Rodofibra, trabalhando com peças de fibra de vidro voltadas principalmente ao setor de transportes. A partir de 2000, o plástico ganhou espaço na produção e deu origem à Rodoplast.

Com o crescimento da indústria, também surgiu uma questão inevitável: o que fazer com as sobras e os materiais que não conseguiam retornar à produção?

A busca por uma solução para os próprios resíduos levou a empresa a estudar tecnologias, visitar outros países, testar equipamentos e ampliar sua visão sobre o problema.

O que começou como uma necessidade interna revelou uma oportunidade maior. A tecnologia poderia ser aplicada também a resíduos urbanos, agrícolas e a materiais que hoje possuem poucas alternativas de aproveitamento.

Em abril de 2023, foi criada a Ambientalplast, empresa do grupo voltada à recuperação de materiais e ao desenvolvimento dessas novas soluções.

Um projeto construído por diferentes conhecimentos

Uma das forças da iniciativa está na união de diferentes participantes.

A Rodoplast trouxe sua experiência industrial e a decisão de procurar uma solução para os resíduos gerados pela própria atividade. A Ambientalplast passou a concentrar o desenvolvimento e a futura operação do projeto.

A EKT Global, empresa de Novo Hamburgo e uma das grandes fornecedoras da iniciativa, participa com tecnologia e equipamentos para preparar os resíduos e transformá-los em CBSI.

A Universidade de Caxias do Sul participa por meio do Laboratório de Energia e Bioprocessos. A UCS será responsável por estudar a composição dos resíduos, analisar os produtos gerados e ajudar a medir os resultados ambientais e energéticos.

A Fepam acompanha o licenciamento e estabelece as condições para que os testes ocorram com controle ambiental. O governo estadual e o Badesul viabilizam parte dos investimentos.

Também fazem parte dessa construção o Município, o setor produtivo, os pesquisadores e os trabalhadores que passam a desenvolver novos conhecimentos dentro da operação.

É esse pensamento coletivo que amplia o valor do projeto. Nenhuma empresa, universidade ou governo conseguiria construir sozinho uma iniciativa dessa dimensão.

Especialistas estrangeiros acompanham o avanço

Outro aspecto que chamou a atenção durante a visita foi a presença de dois especialistas estrangeiros, um grego e outro espanhol. Ambos são clientes da EKT Global e estavam em Vacaria para conhecer a iniciativa.

Em conversa com o Diário de Vacaria, eles reconheceram a relevância da estrutura que está sendo implantada. A percepção apresentada foi de que uma solução com essa combinação de tecnologias e nessa escala ainda é pouco conhecida pelo mercado americano.

A presença desses profissionais ajuda a revelar uma dimensão que pode passar despercebida para quem observa apenas as máquinas: Vacaria começa a se transformar em um espaço de pesquisa e demonstração tecnológica com possibilidade de diálogo internacional.

Aqui será possível trabalhar com resíduos reais, acompanhar o processo industrial, analisar os produtos e produzir conhecimento que pode interessar a outras cidades, empresas e países.

Isso aproxima Vacaria de um mercado global que procura soluções para dois grandes desafios: reduzir a quantidade de lixo enviada aos aterros e encontrar novas fontes de energia com menor impacto ambiental.

Quando a cidade inteira pode ganhar

O valor de uma iniciativa como essa não fica restrito aos limites da empresa.

Um projeto industrial e científico dessa dimensão pode abrir espaço para empregos especializados, formação de trabalhadores, pesquisas universitárias, prestação de serviços, fornecedores locais e novos empreendimentos.

Estudantes podem encontrar em Vacaria um ambiente para conhecer áreas como engenharia, química, meio ambiente, automação, energia e gestão de resíduos. Profissionais da região podem desenvolver habilidades que hoje ainda são pouco encontradas no mercado.

A presença de pesquisadores, empresas e visitantes também movimenta outros setores. Hospedagem, alimentação, transporte, manutenção, construção, serviços técnicos e comércio podem fazer parte dessa nova cadeia.

Existe ainda um ganho de identidade. Vacaria passa a ser lembrada não somente por aquilo que tradicionalmente produz, mas também pela capacidade de pesquisar, inovar e apresentar soluções para problemas enfrentados em todo o mundo.

Esse reconhecimento não acontece de um dia para o outro. Entretanto, começa quando uma cidade cria condições para que conhecimento, investimento e pessoas diferentes se encontrem em torno de uma iniciativa comum.

Agricultura também pode fazer parte da transformação

A possibilidade de crescimento do projeto tem uma ligação direta com a realidade dos Campos de Cima da Serra.

Durante a visita, foram discutidos estudos para o aproveitamento de pneus descartados e de biomassas geradas pelas atividades agrícolas e florestais.

Entre os materiais citados estão casca de arroz e resíduos provenientes de pomares de maçã, reflorestamento e silvicultura.

Isso abre uma perspectiva importante para uma região fortemente ligada ao agronegócio. Materiais que hoje representam custo ou dificuldade de destinação podem, depois de analisados e autorizados, tornar-se parte de novos processos produtivos.

Assim, a iniciativa aproxima indústria, cidade e campo. O problema do resíduo deixa de ser observado de maneira isolada e passa a fazer parte de um sistema no qual diferentes atividades podem cooperar.

Coleta seletiva e trabalho social continuam importantes

A tecnologia não elimina a importância da separação correta do lixo nem o trabalho desenvolvido pelas associações de recicladores.

Materiais como papelão, metais e plásticos que possuem valor de reciclagem devem continuar sendo separados e destinados às entidades que geram trabalho e renda por meio dessa atividade.

A nova planta amplia as possibilidades principalmente para a parcela que não consegue ser aproveitada pelos processos tradicionais e que normalmente terminaria em um aterro.

A oportunidade está em construir uma cadeia na qual cada material encontre a melhor utilização possível e na qual desenvolvimento ambiental também represente inclusão, trabalho e benefício social.

O avanço entra em uma nova etapa

Depois da operação acompanhada na sexta-feira, o projeto segue para a incorporação de novos equipamentos.

A instalação do sistema de peletização está prevista para começar a partir de 25 de agosto. Ele permitirá transformar o CBSI em pequenas unidades padronizadas, facilitando seu armazenamento, transporte e utilização.

Na área da pirólise, a empresa já possui um equipamento que trabalha por bateladas, processando uma quantidade de cada vez. Um novo conjunto será instalado para permitir uma operação contínua, dando mais ritmo e capacidade ao processo.

Essas próximas etapas não diminuem o marco alcançado. Pelo contrário: mostram que o projeto deixou de ser apenas uma intenção e entrou em uma fase concreta de implantação, funcionamento e evolução.

Cada novo equipamento passa a se conectar a uma estrutura que já existe e que demonstrou, diante da comitiva, como os resíduos podem começar a percorrer um caminho diferente.

De Vacaria para um universo de oportunidades

O significado mais amplo do projeto está naquilo que ele pode criar ao seu redor.

A Ambientalplast nasceu da decisão de uma indústria de olhar para o próprio resíduo e assumir que ele não deveria ser simplesmente descartado. A partir desse primeiro movimento, aproximaram-se universidade, governo, fornecedores de tecnologia, pesquisadores, trabalhadores e especialistas de outros países.

O resultado começa a ultrapassar a solução de um problema interno.

Vacaria passa a abrigar um ambiente onde novas tecnologias podem ser testadas, conhecimentos podem ser produzidos e pessoas podem encontrar oportunidades que antes precisariam buscar longe da cidade.

Ainda haverá etapas de desenvolvimento, medições e aperfeiçoamentos, como ocorre em todo projeto inovador. Mas agora existe uma base real: investimento contratado, licença ambiental, equipamentos instalados, pesquisa universitária e uma planta piloto que realizou sua primeira operação integrada.

O que entrou na Ambientalplast como lixo urbano, na sexta-feira, saiu como uma nova matéria-prima. Ao redor dessa transformação, Vacaria começa a descobrir que também pode produzir conhecimento, conexões e oportunidades com alcance muito maior do que seus limites geográficos.

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