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CSG

O que a maioria não vê: bastidores revelam como o HNSO trabalha para atender a região inteira

Poucas pessoas conhecem o funcionamento interno de um hospital. A maioria enxerga a porta da emergência, o médico e a enfermeira, mas ignora a estrutura que trabalha 24 horas para que tudo aconteça.

O Diário de Vacaria decidiu aproximar a comunidade dessa realidade com uma série especial sobre o Hospital Nossa Senhora da Oliveira (HNSO). Este é o segundo episódio da cobertura.

O primeiro apresentou o papel da filantropia com as falas da Irmã Adelide, Zilma Caieron e Regene Mariano da Rocha, disponíveis aqui.

Nesta nova conversa, Mirela Rissardi, assistente de direção, e Lumara Rocha, coordenadora administrativa, explicam como funciona a engrenagem interna que sustenta os atendimentos. São setores pouco conhecidos pelo público, mas essenciais para que médicos e enfermeiros consigam trabalhar.

A mudança de era: do DOS ao sistema integrado

Mirela trabalha há mais de 23 anos no HNSO e testemunhou o período inicial, quando o hospital tinha apenas seis computadores e operava com sistema DOS. As prescrições e registros eram todos manuais, o que incluía organização de medicamentos, balanços de estoque e controle administrativo. “Era tudo muito manual”, relatou. A modernização trouxe sistemas informatizados, novos processos e aumento do quadro de pessoal, que passou de seis enfermeiros para mais de quarenta.

Mesmo assim, um desafio ainda permanece: o papel nunca deixou de existir. Prontuários precisam ser guardados por 25 anos, exigindo grande espaço físico. “Achamos que quando mudamos o sistema o papel diminuiria, mas nos enganamos: duplicou”, destacou.

Tecnologia avançada, manutenção difícil e continuidade ameaçada

O hospital possui tomografia, ressonância, raio-x digital, mamografia e equipamentos cirúrgicos modernos. Porém, manter tudo funcionando é um desafio constante. Quando um aparelho falha, a manutenção raramente é local e depende de equipes externas.

“Quando para um raio-x, não é simplesmente esperar. A empresa precisa vir e isso demanda tempo”, explicou Lumara. Enquanto isso, pacientes de consulta, internação e emergência precisam ser reorganizados.

Um caso recente foi a parada da tomografia, que ficou dois dias sem operar. Para não deixar pacientes desassistidos, o hospital resolveu com estratégias provisórias. “Quem podia fazia ressonância, e quem precisava tomografia foi encaminhado a hospitais parceiros de outras regiões”, relatou Mirela. Essas situações mostram como o atendimento pode ser comprometido por fatores além da vontade da equipe.

Como fazer obras em setores que não podem parar

As reformas também merecem destaque: se tornaram parte da rotina diante de normas como a RDC nº 50, que determina padrões estruturais. “Todos os projetos acontecem em cima de regras e daquilo que a Anvisa preconiza”, explicou Mirela.

Outro desafio é realizar reformas enquanto o hospital funciona. O novo Centro de Parto Normal, construído acima da hemodiálise, exemplifica essa complexidade.

A hemodiálise opera de segunda a sábado, durante todo o dia, o que obrigou a execução dos serviços à noite. “Eles trabalhavam, recolhiam o material, cobriam tudo e a limpeza organizava para o dia seguinte”, contou Mirela.

A obra, que em condições normais levaria uma semana, durou cerca de um mês devido às limitações de horário e ruído.

Como funciona a entrada do paciente na emergência

O HNSO é porta aberta para urgência e emergência, e todo paciente que chega é atendido. Porém, existe um fluxo obrigatório. Mesmo em situações graves, o hospital precisa simultaneamente abrir cadastro para registrar horário e dados.

“É necessário abrir o atendimento para dar sequência ao processo”, afirmou Mirela. Quando o paciente chega sem documentos ou inconsciente, é registrado como “sem identificação” e o atendimento clínico inicia imediatamente.

Enquanto médicos e enfermeiros atuam, a equipe administrativa tenta localizar familiares ou informações. Em casos mais complexos, como moradores de rua, o hospital aciona inclusive o IGP – Instituto-Geral de Perícias do Rio Grande do Sul para identificação por papiloscopia.

Depois do cadastro, o paciente passa pela classificação de risco. Casos graves, como infarto ou fratura exposta, são atendidos imediatamente.

Para tornar o fluxo mais transparente, o hospital disponibiliza três monitores que exibem o status do atendimento. “O paciente consegue visualizar sua classificação e o andamento”, afirmou Lumara. Isso facilita a compreensão do tempo de espera e reduz a insegurança de quem aguarda.

Como registrar reclamações e sugestões

O hospital mantém canais de atendimento para ouvir a comunidade. A ouvidoria funciona presencialmente em horário comercial, e o site oferece o Fale Conosco, que envia diretamente à administração.

“Temos pessoas treinadas para receber essas informações”, explicou Mirela. O canal tem sido importante para esclarecer dúvidas e ajustar processos e pode ser acessado aqui.

Filantropia na prática: 90% dos atendimentos são SUS

Embora seja privado, o HNSO é filantrópico e precisa comprovar 60% de atendimento SUS. A realidade local é muito maior. “Hoje atendemos quase 90% SUS. Na urgência e emergência chegamos a 98%”, informou Mirela. Isso reduz o espaço para atendimentos privados, que ajudam no equilíbrio financeiro, mas reforça o compromisso social assumido pela instituição.

A congregação das Irmãs de São José mantém essa missão desde que assumiu o hospital, décadas atrás. “Enquanto as irmãs estiverem aqui, vão estar trabalhando para a comunidade e mantendo a essência de atender o SUS”, disse Mirela. No primeiro podcast, Irmã Adelide reforçou que a presença das irmãs em Vacaria se deu justamente para suprir uma necessidade do município em um período delicado.

A conta que não fecha: SUS paga abaixo do custo real

Os valores pagos pelo SUS não cobrem o custo de muitos serviços. Mirela exemplificou de forma direta: “Hoje o SUS paga para um raio X em torno de R$ 6,50. O custo é em torno de R$ 20”.

A diferença é absorvida pelo hospital, que depende de emendas parlamentares, programas estaduais e federais e repasses específicos para fechar as contas. Além disso, parte dos recursos chega com atraso, o que exige organização financeira para manter salários, fornecedores e obrigações em dia.

Sistema de regulação estadual define transferências e vagas

O hospital está integrado ao sistema estadual de regulação, com o Gerint para leitos e o Gercom para cirurgias e consultas. A UTI, com dez leitos, precisa ser atualizada três vezes ao dia no sistema, informando quem está internado e se há vagas. “O Estado enxerga isso e faz o gerenciamento”, explicou Mirela. Se outro município precisa de UTI e o HNSO tem vaga, o paciente é direcionado para Vacaria.

Os sistemas Gerint e Gercon são plataformas digitais desenvolvidas pela Companhia de Processamento de Dados do Município de Porto Alegre (Procempa) em parceria com a Secretaria Estadual da Saúde (SES) do Rio Grande do Sul. Entenda a função de cada um:

  • GERINT – Sistema de gerenciamento de internações hospitalares; Permite o controle em tempo real das solicitações de internação, identificando a urgência dos casos e a ocupação dos leitos; Auxilia na priorização de casos, ajudando a desafogar os prontos-atendimentos e acelerar o atendimento aos casos mais graves; É utilizado por hospitais em todo o Rio Grande do Sul e está integrado ao sistema de regulação estadual; Facilita o acompanhamento completo das solicitações de internação, com informações sobre a evolução do paciente, exames realizados e demais dados relevantes.
  • GERCON – Auxilia na identificação de vazios assistenciais e na reorganização das filas por especialidade e região; Sistema de regulação de consultas com especialistas e procedimentos de alta complexidade; Gerencia de forma automatizada o agendamento de consultas e exames, promovendo maior controle e eficiência; Contribui para evitar sobreposições de pedidos de consulta para o mesmo paciente em diferentes municípios;

Da mesma forma, quando o hospital precisa transferir pacientes para alta complexidade, como cateterismo ou neurocirurgia, quem decide o destino é o Estado. As solicitações passam por classificação, análise de exames e disponibilidade. “Não depende de nós a velocidade da transferência”, reforçou Mirela. Para acompanhar tudo em tempo real, o hospital possui o Núcleo Interno de Regulação (NIR).

Hemodiálise: um setor que funciona em ritmo próprio

O podcast também destacou o papel da hemodiálise, um serviço que funciona de segunda a sábado e exige atenção constante. Como os pacientes dependem do procedimento para sobreviver, qualquer interrupção é crítica. Por isso, obras e manutenções próximas ao setor precisam ser planejadas com muito cuidado.

“A hemodiálise funciona o dia todo. Não podemos comprometer o serviço”, reforçou Mirela.

Além da responsabilidade assistencial, o setor é 100% SUS, o que reforça a função social do hospital na região. A renovação das máquinas, conquistada recentemente, melhora a segurança dos pacientes e reduz riscos de falhas, mas aumenta o desafio de treinamento e manutenção.

Cadernos, Campos de Cima da Serra, Rio Grande do Sul, Saúde e Bem Estar, Vacaria

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