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Fim da autoescola para CNH: Telmo Gasparini explica solução encaminhada pelo governo

O podcast Acelera Diário, trouxe em seu episódio 22, um tema essencial para o cotidiano de milhares de brasileiros: a formação de condutores.

O convidado Telmo Cristiano Gasparini, instrutor de trânsito com mais de 28 anos de experiência, compartilhou sua trajetória profissional e as futuras transformações no processo de habilitação em Vacaria e no país.

Fim da autoescola para CNH: Telmo Gasparini explica solução encaminhada pelo governo

Telmo iniciou sua trajetória como estagiário, na antiga Delegacia de Trânsito nos anos 1990, era o órgão responsável pela emissão da carteira de motorista. Lá, entre arquivos e exames práticos, começou a desenvolver um olhar técnico e humano para o trânsito e seus futuros condutores.

E acompanhou a transição do sistema informal para o modelo regulado pelas autoescolas e, mais recentemente, os debates sobre mudanças propostas pelo governo que podem colocar em risco toda uma cadeia profissional.

A formação de condutores nos anos 1990

A forma como se tirava a carteira de motorista em Vacaria nos anos 90 era bastante diferente. Os exames práticos aconteciam de maneira simples e, muitas vezes, sem estrutura.

Os candidatos chegavam até a delegacia dirigindo seus próprios carros, motos ou caminhões e faziam um trajeto curto, acompanhado por um instrutor ou policial. “O examinador perguntava: ‘já dirigiu?’, e o pai dizia: ‘já foi até Caxias com o meu caminhão’”, relembra Telmo sobre a informalidade da época.

Não existia obrigatoriedade de aulas, muito menos estruturas como rampas, balizas ou simuladores. A maioria aprendia a dirigir com familiares, e a autoescola era uma opção apenas para quem tinha condições financeiras. Segundo Telmo, a evolução era natural e acompanhava a necessidade de tornar o trânsito mais seguro.

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A regulamentação e a criação dos CFCs

O marco mais importante foi em 1997, quando o Detran extinguiu a Ciretran e estabeleceu novas regras para a formação de condutores. Surgiram os Centros de Formação de Condutores (CFCs), que passaram a ter papel central no processo.

Para abrir um CFC, era necessário um local físico, sala de aula equipada, carros e motos adaptados, instrutores capacitados e um projeto aprovado pelo órgão estadual.

“Em 1996 já corri atrás, fui fazer o curso de instrutor em Caxias, eram 720 horas, todo final de semana,” contou Telmo. “Eu saía de Vacaria na sexta depois do expediente e voltava domingo cedo.”

Telmo se antecipou à mudança e se formou como instrutor em Caxias do Sul. Com o fechamento da Ciretran, mais de mil processos foram redistribuídos entre os três CFCs de Vacaria, o CFC Bueno, onde Telmo trabalha até hoje, o CFC Vacaria e o CFC Platon, posteriormente incorporado pela rede Rizzon.

O impacto dos simuladores e da carga horária

Com o passar dos anos, o processo de habilitação foi se tornando mais exigente. Inicialmente, exigia-se dez horas de aula prática. Posteriormente, o número aumentou para 12, 15, 20 e chegou a 25, sendo cinco obrigatoriamente em simulador.

Segundo Telmo, o simulador oferecia uma excelente experiência para o aluno, mas o alto custo levou à sua retirada. “Você saía do simulador com noção dos pedais, era idêntico a um carro de verdade. Uma pena que ficou encostado por causa dos custos.”

Mesmo com a obrigatoriedade encerrada, os simuladores ainda estão presentes em algumas escolas, embora abandonados. A estrutura exigia instrutores exclusivos e pagamento de provedores, o que elevava consideravelmente o custo final da CNH, chegando a mais de R$ 600 apenas com essa tecnologia.

Como é o processo de habilitação hoje

Atualmente, o processo em Vacaria exige que o candidato faça 45 horas de aulas teóricas, hoje aplicadas de forma online, e 20 horas de aulas práticas obrigatórias. A primeira etapa inclui exames médicos e psicotécnicos, todos realizados no CFC. Após a aprovação na prova teórica, com pelo menos 21 acertos em 30 questões, o aluno recebe a autorização para iniciar a parte prática.

O custo médio da CNH, conforme informado por Telmo, gira em torno de R$ 2.600, já incluindo taxas do Detran, exames e o serviço prestado pelo CFC. Ele destaca que esse valor cobre não apenas as aulas, mas toda uma estrutura composta por até 15 profissionais, incluindo médicos, psicólogos, atendentes e instrutores e segundo Telmo, a proposta do curso é clara: formar motoristas conscientes, não apenas habilitados.

Propostas do governo e a preocupação dos profissionais

Recentemente, o governo federal abriu uma consulta pública com propostas para alterar o modelo atual. Entre elas, estão a formação teórica 100% online e a possibilidade de formação prática com instrutores autônomos, fora dos CFCs.

“Hoje, os altos custos e a burocracia impedem milhões de pessoas de ter a habilitação. 20 milhões de brasileiros dirigem sem carteira, porque o modelo atual é excludente, caro e demorado demais”, afirmou o ministro do Transportes, Renan Filho.

Uma fala que preocupa afirma Telmo: “Como você vai dar aula num carro que não é adaptado, sem pedal duplo? Qual a segurança para o instrutor e para o aluno?” muitos detalhes precisam ser vistos, afirma ele.

Para ele, a proposta é arriscada e alerta para o risco de formar condutores sem preparo adequado além é claro do desemprego de milhares de profissionais envolvidos com o processo da CNH.

O debate que precisa ser feito

Um dos argumentos do governo é o custo alto para tirar uma carteira de motorista, no entanto Telmo rebate com uma pergunta: “Se o governo quer baratear, por que não reduz os impostos e as taxas do Detran ao invés de desmontar a estrutura que forma motoristas com segurança?”

Conforme o Ministério dos Transportes, hoje, 20 milhões de brasileiros
dirigem motos e carros sem carteira de habilitação. 

A crítica vai além, Telmo é enfático ao dizer que a possível extinção do modelo atual de autoescolas pode resultar em motoristas inseguros, mal preparados e, por consequência, em mais acidentes. “A autoescola é como uma escola pública ou privada: você escolhe, mas não pode tirar o direito da existência.”

Ele ainda levanta uma questão essencial: “Estamos preparando motoristas para respeitar as regras, ou apenas pessoas que saibam passar marcha?” A resposta parece simples, mas exige uma reflexão profunda por parte do poder público e da sociedade.

O papel social e emocional do instrutor

Durante a conversa, Telmo destacou que ensinar a dirigir vai muito além da parte técnica. O instrutor não está apenas preparando alguém para um exame. Está preparando para a vida. “Já aconteceu de aluno voltar depois de um ano dizendo que perdeu a carteira por infrações. Isso é muito frustrante”, desabafa.

O instrutor precisa compreender o perfil do aluno, lidar com ansiedades, medos e dificuldades cognitivas. É um trabalho que exige sensibilidade e responsabilidade, pois o aluno que não está pronto pode representar riscos para si e para os outros.

Ele enfatiza que a educação no trânsito é um ato contínuo e que começa dentro de casa.

Mudança de geração, mudança de comportamento

É notavel o desinteresse crescente de parte da nova geração em obter a CNH e Telmo observa que muitos jovens hoje preferem usar aplicativos de mobilidade ou não sentem a mesma pressa em aprender a dirigir. Isso também está relacionado a mudanças no estilo de vida, como morar em locais sem garagem ou priorizar outros meios de transporte.

“Tem gente que chega com 18 anos e nunca ligou um carro. Antigamente, com 14, 15 anos, já sabiam dirigir no interior,” compara Telmo.

Apesar disso, ele reforça que dirigir ainda é uma competência essencial, não apenas pela liberdade de ir e vir, mas pela oportunidade de trabalho e de formação pessoal. Mas a reflexão é importante: será que essa nova relação com a mobilidade justifica a simplificação do processo de habilitação?

Um futuro que pede cautela e consciência

A formação de motoristas no Brasil está longe de ser apenas um serviço. Trata-se de um processo de educação e cidadania, onde vidas estão em jogo a cada decisão no trânsito.

O debate sobre a flexibilização das regras é válido, mas precisa ser conduzido com responsabilidade, ouvindo quem vive isso diariamente. “A gente não prepara o aluno só pra passar na prova, mas pra respeitar a vida no trânsito. A consciência tem que vir junto com a carteira,” disse o instrutor.

Mais do que baratear o custo, o país precisa valorizar o que realmente importa: a formação consciente, segura e humana de seus condutores.

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